Todos, ou quase, continuam dizendo que não teve, e não tem, crise. Já até cheguei a ler a requentada brincadeira de tirar o “s” da crise. Eu não sei. Esse pessoal não vai ao supermercado?!
Até as notícias dizem que o preço disso subiu, daquilo subiu, e do outro também. Claro, sempre tem algum produto que o preço desceu. Principalmente daqueles que estão perto do vencimento da validade. Mas aí não é uma questão de crise e sim, de giro de mercadoria. Como não tem crise?
Mas não quero discutir esses detalhes.
Outro dia, o sujeito — aquele que parece, pela voz, que é sempre o mesmo, em qualquer supermercado — anunciava um computador com 4 GB de memória, HD de 320 MB e monitor LCD de 18,5” , por R$1300,00 e levava uma multifuncional.
Na época do meu primeiro computador — esse, a gente nunca esquece —, mesmo considerando todas as evoluções, seria um baita equipamento.
Parece que ninguém comprou, pois no dia seguinte o mesmo cara anunciava o mesmo computador por R$999,00 — pobre não perde a mania de comprar por R$1,99 — , mas agora, sem a multifuncional.
Quando você chega pra ver o produto, já surgem, do teto, pela direita e pela esquerda, três mocinhas perguntando se você não quer fazer o cartão, do próprio mercado. “Não, não! Só estou olhando.”
Ah! Mas elas não desistem e começam a desfilar 1000 facilidades. Chega uma hora que você não aguenta mais. “Não quero! Deu pra entender??!!”
Ninguém chegou pra ver o equipamento. Nem mesmo pra ver! Pra dar uma olhadinha! Afinal o preço é um pouco mais que dois salários mínimos. Isso dividido em 250 vezes, dá uma mixaria, que qualquer pobre pode comprar.
Deixa eu acertar um pequeno detalhe, já que fui questionado. Quem é pobre? Bem, se você melhorou um pouco de vida, mas chega no final do mês sem um tostão pra comprar, em muitas vezes, um pãozinho, você é pobre. Se você espera o final do ano pra negociar a escola ou a faculdade da(o) filha(o), porque usou a mensalidade pra comprar o pãozinho, você também é pobre. Se sua geladeira balança; se a máquina de lavar-roupa treina, o ano inteiro, para o carnaval; o empadão, no forno, assa mais atrás do que na frente e o seu carro, de vez em quando — mais em “quando” que em “vez” —, dá um probleminha, lamento dar-lhe a notícia. Você é pobre!
Isso esclarecido, voltemos à crise.
Bom, se o pobre não pode comprar o computador, é porque ele já comprou um pra família ou não tem dinheiro pra comprar ou então, não é pobre e vai comprar um muito melhor. Isso é crise!
Alegria de pobre é passear no supermercado, ouvir as promoções dos sonhos de consumo e pensar que um dia, quem sabe, poderá comprar. A tristeza é quando vê que o queijo comprado no mês passado, dobrou o preço. Isso é crise!
A TV LCD que baixou de 3 mil, pra mil e quinhentos reais, na promoção, não indica que melhorou. O supermercado é que não consegue vender. Mas o apresuntado não baixou. Na verdade, subiu. E os 250 gramas que você comprava pro lanche e pra lasanha de domingo, vai ter que se contentar com 150g. Isso é crise!
A esperança de novos tempos, éticos e sérios, depositados nas urnas há 9 anos, em 2002, foi pro brejo. Isso é crise!
Bem, se você também diz que não tem crise, parabéns! Veio só se divertir né??!!!!
Achei teu texto muito bom, prova que existe uma crise, mas prova também que ela sempre existiu, pois mesmo antes da crise internacional, todos estes problemas já existiam, sem nenhuma excessão.
No entanto, acho que o problema de ser pobre ou não vai muito mais além de poder ou não comprar um objeto. A pobreza é uma situação mental e espiritual. Podemos encontrar pobres com um milhão na conta bancária e milionários sem um tostão no bolso. Podemos ver pobres dirigindo um país, usando ternos de linho egípcio, e no entanto sempre serão pobres, sempre serão esmoleiros, mendigos, sempre dependerão de bater a carteira de alguém para suprir a sua falta financeira.
A pobreza mental e espiritual praticamente não tem cura, enquanto que a falta de dinheiro pode ser momentânea se o sujeito não for portador da primeira.
Eu gosto de medir a pobreza das pessoas por outros parâmetros.
Horizonte, por exemplo: O que você faria se tivesse um milhão de dólares agora? Botaria na poupança e deixaria de trabalhar? Investiria num negócio para multiplicar esse milhão? Compraria 5 carros de luxo e colocaria na garagem?
Se você ficasse desempregado agora, ou se o seu negócio falisse, o que faria para sobreviver? Já tem um plano B? Ou a situação seria catastrófica e lhe deixaria na miséria?